Volta e meia alguém resolve desconstruir a reputação de uma pessoa de bem que tenha feito algo de positivo para a humanidade. E se esta pessoa ainda for religiosa, não lhe faltarão os detratores, que fuçarão a sua vida até descobrir toda sorte de pecadilhos que possam decompor a imagem pública cultivada pela vítima. Vítima sim. Vítima do mau jornalismo e da pesquisa viciada.
Foi assim com Ghandi. Ao envelhecer e seguir os preceitos de sua religião, que orientava os adeptos a se absterem de uma vida sexual após certa idade, passou a se fazer acompanhar de um discípulo, como, aliás, também lhe orientava o hinduísmo. Foi o suficiente para que o acusassem de ser homossexual. E, isto, claro, como se o fato de ser homossexual diminuísse de alguma forma a sua biografia e seus ensinamentos.
Agora que, afinal, Madre Teresa de Calcutá foi canonizada e tornada santa pela igreja católica, populam aqui e ali matérias sobre um tal "lado obscuro" da madre. Milionária, sádica, impiedosa. Amiga de ditadores e concupiscente. Até palavras que expressam o cerne da sua própria fé foram distorcidas para que, afinal, todos vissem "o outro lado" da freira indiana.
Só que não há outro lado algum. Ou até há. É o lado humano. O lado falho e imperfeito, o lado contraditório que há em todos nós. Humanos falhos exigindo perfeição absoluta de uma mulher que fez pelo próximo o que eles não fariam jamais em mil anos. Madre Teresa era humana como todos nós somos. Algumas vezes acreditou que aquilo que fazia era bom e suficiente e talvez não fosse tanto assim. Cuidou dos velhos abandonados da Índia e do mundo afora onde sua missão aportou, como nenhum dos pesquisadores fuçadores de sua vida talvez fizesse com seus próprios pais.
Uma pichação memorável das ruas da Salvador dos anos 80 dizia: "Irmã Dulce tem conta na suiça". Irmã Dulce, para quem não sabe, é a Madre Teresa da Bahia. O autor quis apenas chocar, fazer pensar, e jamais questionou as virtudes ou apontou as falhas da baiana. Fosse hoje em dia, não faltaria quem apontasse a estratégia de Dulce de fingir-se de moribunda para fazer com que políticos lhe abrissem a mão. Inventariam até uma sociedade das duas, Dulce e Teresa, juntas pelo mal da humanidade. E fingiriam revelar ao mundo a improvável - e falsa - Madre Teresa de Calcular. E ainda assim, nada fariam pelo próximo além de levantar acusações incipientes.

Perfeito. E isso vale tanto pras pessoas de conhecimento global, quanto para ilustres desconhecidos. Muito se sofre por querer fazer o bem e são acusados justamente do oposto. Gente que nasceu pra criticar a postura alheia. Mas tem um ditado que diz que mascavo senta no rabo pra falar do rabo dos outros.
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