terça-feira, 13 de setembro de 2016

Bem vindo a Maieq.

Acordei de sobressalto, sem saber direito onde eu estava. Esperei aqueles três segundos após um bom cochilo para acordar de verdade e me localizar, mas os três segundos viraram trinta, um minuto, dois, cinco e eu continuava sem saber o que fazia naquele trem luxuoso em alta velocidade atravessando uma paisagem completamente desconhecida e aparentemente estrangeira.

Notei que  havia uma moça sentada algumas poltronas à frente e estávamos sós naquele vagão. Me aproximei, a cumprimentei em inglês e, sem mais delongas, perguntei-lhe onde estávamos.
- Perto de Maieq. Logo chegaremos lá.
Fiquei sem jeito de fazer uma nova pergunta e comentei:
- Não sei porque, não gosto muito deste país...
- Oh, porque você não gosta da Moldávia?

Então, era na Moldávia que estávamos. Mas, que diabos eu estaria fazendo ali?
- Nem sei te dizer. Eu gosto da Romênia, veja só...Mas, não da Moldávia.
O trem diminui a velocidade e se aproximou de uma cidade. Era a tal Maieq. Mas o que eu iria fazer naquele lugar? Ainda mais que não sabia falar muita coisa de romeno, ainda mais do romeno falado na Moldávia.

Peguei a minha maleta de mão. Sim, eu tinha uma. Na estação.entrei em uma espécie de foyer, onde havia algumas peças de arte expostas com inscrições em uma língua incompreensível que nem romeno era.

Notei uma banca de revistas e me aproximei para tentar encontrar alguma pista sobre a razão de estar em um país desconhecido, sem saber porque estaria ali nem como havia chegado. Observei os exemplares expostos e, para minha surpresa, estavam todos em português. Olhei para a placa de um carro que passava e estava escrito: "Maieq-BA". De repente, a paisagem mudou e eu parecia estar em uma pequena cidade do interior da Bahia. Comecei a perder os sentidos.

Desmaiei e acordei em um quarto de hotel, com a minha companheira de viagem ao lado, pronta a tirar sangue do meu pescoço com uma seringa. Segundo ela, para um exame detalhado e poder avaliar a minha saúde. Foi então que matei a charada e descobri que estava apenas sonhando. Não existia Maieq alguma nem aquela paisagem romeno-baiana, nem sequer a minha draculosa companheira solitária de viagem.
- Pode tirar o sangue. Eu sei que é um sonho.

Ela riu e apenas concluiu seu trabalho. Pediu que eu descansasse e disse que logo estaria de volta.  Mesmo um pouco atônito, acabei pegando no sono.
Acordei com o despertador gritando que já era tarde e que havia perdido a hora para o trabalho. Passei a mão no pescoço e senti um pequeno caroço. Era a marca da agulha da misteriosa partner do meu sonho.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A invenção da Madre Teresa de Calcular.

Volta e meia alguém resolve desconstruir a reputação de uma pessoa de bem que tenha feito algo de positivo para a humanidade. E se esta pessoa ainda for religiosa, não lhe faltarão os detratores, que fuçarão a sua vida até descobrir toda sorte de pecadilhos que possam decompor a imagem pública cultivada pela vítima. Vítima sim. Vítima do mau jornalismo e da pesquisa viciada.

Foi assim com Ghandi.  Ao envelhecer e seguir os preceitos de sua religião, que orientava os adeptos a se absterem de uma vida sexual após certa idade, passou a se fazer acompanhar de um discípulo, como, aliás, também lhe orientava o hinduísmo. Foi o suficiente para que o acusassem de ser homossexual. E, isto, claro, como se o fato de ser homossexual diminuísse de alguma forma a sua biografia e seus ensinamentos.

Agora que, afinal, Madre Teresa de Calcutá foi canonizada e tornada santa pela igreja católica, populam aqui e ali matérias sobre um tal "lado obscuro" da madre. Milionária, sádica, impiedosa. Amiga de ditadores e concupiscente. Até palavras que expressam o cerne da sua própria fé foram distorcidas para que, afinal, todos vissem "o outro lado" da freira indiana.

Só que não há outro lado algum. Ou até há. É o lado humano. O lado falho e imperfeito, o lado contraditório que há em todos nós. Humanos falhos exigindo perfeição absoluta de uma mulher que fez pelo próximo o que eles não fariam jamais em mil anos. Madre Teresa era humana como todos nós somos. Algumas vezes acreditou que aquilo que fazia era bom e suficiente e talvez não fosse tanto assim. Cuidou dos velhos abandonados da Índia e do mundo afora onde sua missão aportou, como nenhum dos pesquisadores fuçadores de sua vida talvez fizesse com seus próprios pais.

Uma pichação memorável das ruas da Salvador dos anos 80 dizia: "Irmã Dulce tem conta na suiça". Irmã Dulce, para quem não sabe, é a  Madre Teresa da Bahia. O autor quis apenas chocar, fazer pensar, e jamais questionou as virtudes ou apontou as falhas da baiana. Fosse hoje em dia, não faltaria quem apontasse a estratégia de Dulce de fingir-se de moribunda para fazer com que políticos lhe abrissem a mão. Inventariam até uma sociedade das duas, Dulce e Teresa, juntas pelo mal da humanidade. E fingiriam revelar ao mundo a improvável - e falsa - Madre Teresa de Calcular. E ainda assim, nada fariam pelo próximo além de levantar acusações incipientes.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O Buda e o parente que se foi.

Um certo dia, uma mulher veio até Sidarta Gautama, conhecido como o Buda, e, com o filho morto nos braços, lhe pediu que o fizesse viver novamente. Muito abatida, a mulher chorava desesperada sem querer se desgarrar do lençol branco onde depositara a sua criança. O Buda a acalmou e pediu-lhe que trouxesse uma folha de oliveira de uma casa em que nunca houvesse morrido ninguém. Feito isto, ele prometeu que ressuscitaria o seu filho.


A mulher deixou o filho aos pés do Buda e saiu em sua jornada, esperançosa de encontrar uma folha daquela planta em uma casa em que ninguém tivesse morrido. A cada lugar em que a mulher batia, perguntava:
- Olá, aqui já morreu alguém algum dia?

As respostas dos que lhe atendiam iam da indiferença à raiva. Em cada residência sempre havia um parente que falecera. Muitos lhe pediam que não os fizesse sofrer mais Ao fim do dia, bastante cansada, a mulher retornou ao local onde se encontrava Sidarta Gautama, para relatar o seu fracasso: Batera em tantas portas e em nenhuma estava livre do falecimento de um ente querido.



O Buda então lhe disse:
- Perceba que em toda casa que você procurou a folha de oliveira havia um ente querido que já havia partido. Nenhum de nós está livre disto, do ciclo natural de vida e morte. Vá, enterre teu filho e siga em frente, porque um dia, mais cedo, serão os teus que chorarão a sua partida. E você, certamente, não gostaria que eles chorassem e sofressem a vida inteira por ti.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O menino que me ensinou a ser homem.

Quando eu era meninote, por um instante, acreditei piamente que saberia dirigir e entrei no fusca verde de meu pai e dei a partida. Eu já tinha experimentado antes  ligar a ignição e fazer o carro funcionar e achei que era só isto, que seria fácil dar uma volta pela  quadra e retornar em segurança para o mesmo lugar.

Acontece que eu não sabia que um carro precisava de marchas e pedais para funcionar. Em minha cabeça infantil, imaginei que era suficiente fazer o volante girar e estava pronto para a minha grande aventura pelo bairro.

Eu tinha cerca de oito anos à época e minha triste aventura terminou antes mesmo de começar. Ao ligar o carro e ele começar a andar - a rua onde eu morava e ainda moro é levemente enladeirada - me arrependi imediatamente e pisei no freio. Quer dizer, eu achava que era o freio, mas era o acelerador. O carro de meu pai, recém saído da oficina, encontrou violentamente o muro do vizinho.

Hoje, cá do alto dos meus quase 50 anos de idade, eu penso que poderia ter inventado uma história qualquer, dito que nem estava ali na hora do ocorrido. Poderia ter deixado a chave na ignição e insistir em uma versão de que meu próprio pai esquecera a chave lá e alguém tentou roubar o carro e fugir.


Mas, não. Tranquei o carro cuidadosamente e fui para dentro de casa, avisar o meu pai, que dormia, da besteira que havia feito. Contei-lhe exatamente o que aconteceu. A minha recompensa foi uma surra da qual guardo ainda grandes cicatrizes emocionais. Mas não menti. Aquele menino de oito anos, temoroso e, ao mesmo tempo corajoso, preferiu dizer a verdade e assumir o erro, mesmo sabendo das terríveis consequências do seu ato.

E é a este menino que hoje eu agradeço pelo homem que me tornei.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

As manhãs de setembro.

Uma canção de David Bowie está rolando, ao fundo, enquanto escrevo estas linhas. Depois, uma dos Animals de Eric Burdon e tenho certeza que o aleatório do meu mp3player continuará selecionando - nesta manhã meio nublada, meio ensolada - o melhor que os meus ouvidos puderem escutar.

As manhãs de setembro não costumam ser assim como esta. Surgem pungentes e iluminadas, decretando a proximidade da primavera e os encantos daquele que considero o melhor mês do ano. E não é porque eu nasci no vigésimo dia de setembro. É porque setembro é mágico para todas as pessoas, mesmo as que nasceram lá do outro lado do calendário, em uma espécie de "Japão" cronológico e imaginário. Setembro encanta e eleva. Não foi a toa que o nono mês foi escolhido para representar o mês da vida, o "Setembro Amarelo", em uma campanha pela valorização da vida e contra o suicídio.

Ontem, próximo de onde trabalho, um homem tentou se suicidar, de uma maneira no mínimo, bizarra: Desceu da moto em que estava, subiu em um poste e tocou nos fios de alta-tensão. Coitado. Se tivesse esperado ao menos por mais um dia, talvez se sentisse enebriado pelos ventos esperançosos de setembro e desistisse da estúpida ideia.

Quisera eu que todos os meses fossem setembro. Mas também, "setembrizar" os outros onze meses depende exclusivamente de nós. A vida é bela, a vida é feia, é curta e duradoura. Cabe a nós fazer da vida o que a vida faz conosco. Está em nossas mãos. E dá licença que eu vou ali ensinar o vizinho a cantar, antes que esta primeira manhã termine.